Wander's profileWander RodriguesPhotosBlogListsMore ![]() | Help |
|
March 25 Para mimEu morro de medo de perder as pessoas que eu amo e, talvez, por isso mesmo, eu tenha medo de amar assim, tão solto, tão entregue, com os olhos brilhando, cheios de lágrimas, com riso, com choro, com vida. Já faz algum tempo que comecei a guardar só para mim meus sentimentos mais intensos. Justamente aqueles que deveriam ter sido entregues a quem os provocou. Todo aquele amor e todo aquele ódio transformando tudo em mim. Com um peso enorme. Aquilo tudo se acumulando, uns sobre os outros, desordenados, sufocados, e não vividos. A vida passando, as coisas acontecendo e eu ali, incapaz de aproveitar, com medo de perder, qualquer mínima sensação que fosse, boa ou ruim, qualquer coisa. Agora estou abrindo o portão. E não sei bem o que vai sair de lá. Talvez um menino. Um menino triste, pequeno, com os olhos virados para baixo, tentando não cair, pedindo colo, talvez chorando, ou rindo quem sabe, afinal foi libertado. Aquele menino, incapaz de fazer o mal, aquele menino que amava sua avó, que ouvia suas histórias e acreditava nelas. Agora solto. Livre. Talvez para crescer, talvez para reparar todos os danos causados a tantas pessoas, não por maldade ou por vontade, mas por medo. Por insegurança. Talvez esse menino tenha mesmo que crescer. As coisas são assim. E serão sempre assim. Há um quarto escuro e é preciso caminhar. Hoje já é possível ver as mão estendidas esperando para ajudar a sair. E tem a luz lá fora. E já não há medo. Seja bem-vindo ao mundo pequena criança. Não se preocupe mais. Está tudo bem. Seja feliz. Você merece. March 27 Arrotar é viverO arroto é a expressão sublime da existência. Impossível existir sem o arroto. O ato, por si só, é uma afronta ao comportamento do ser. Um desafio vencido. Arrotar é questionar, é impor. É espantar. Arrotar é causar. O som, como que uma besta furiosa e descontrolada, ecoa pelo ambiente dizendo a verdade mundana a tudo e a todos, mostrando a quem pertence o território. Arrotar é rugir, é retornar ao humano mais humano, é resgatar o instinto animal legítimo. O arroto ultrapassa barreiras, não tem classe, não tem cor, não tem princípios. Não há como fugir, não há como ignorar. A essência do arroto consiste em agredir, incomodar, ferir. Ignora-se o ser, mas não a eructação. O arroto é único. Além disso, é notável que o bípede aerofágico é dotado de incomparável poder e muitas vezes não sabe. Com tamanha força, o arrotante expõe-se a tudo e a todos. Destemido. Dizendo aos quatro cantos: Que venham a mim, subalternem-se, ou sintam a fúria tsunâmica do ar xorumélico. Arrotar é poder. Arrotar é viver. Viva o arroto. Mente divididaTenho a mente dividida. Tenho a impressão às vezes, de que sou duas pessoas em uma só. Bom humor, mau humor, calmo, irritado, nervoso, tranqüilo... Consigo alternar momentos de extremo bom humor com uma impaciência inexplicável. Mas quem quer saber? Quem se importa? Saí de casa como de costume, entrei no carro e segui pelas ruas frias e ainda com um resto de neblina. Seria mais um dia de trabalho normal, se é que posso chamar de normal o meu trabalho ou eu mesmo. Não sei bem o que é ser normal. Dirigi por ruas estreitas e cheguei até a avenida principal que iria me levar até o escritório. Parado no sinal, ao lado de um casarão demolido, pude observar um casal que se movimentava enrolado em pedaços de pano. Rapidamente concluí que se tratava de mendigos procurando um abrigo. O sinal abriu e arranquei. Não sei explicar o motivo, mas o fato é que fiquei com a imagem de dois vultos perambulando pelas sombras dos escombros, figuras sem rosto, vagando numa espécie de inferno na terra. Fiquei pensando neles. O que fazem os mendigos? Ignorados por sua própria raça tornam-se subumanos e então se tornam mendigos. É o estágio mais precário da condição humana. Imaginei-me mendigo. Sem família, sem trabalho, sem casa, carro, despido de valores morais e éticos. Sem horários, sem realizações, sem planos. Imaginei-me caminhando pelos corredores do casarão, sujo, descalço, com vergonha de mim mesmo, com nojo. Enrolado em trapos. Tentando não aparecer para ninguém, tentando conseguir alguma comida e um lugar pra dormir. Olhei para o relógio, quase oito horas. O dia estava começando. Meu dia, eu já sabia, seria ruim. Pouco trabalho e consequentemente, pouco dinheiro. Mas os mendigos... Liguei o rádio. O locutor apresentava as notícias cotidianas de corrupção no governo. Não prestei atenção, não era novidade. A novidade, hoje, era o mendigo. O mendigo que provavelmente estava ali todos os dias. Que devia estar invadindo aquela área para se esconder do frio e das pessoas. Que seria preso se fosse visto. Que estava sujo, mas não queria um banho. Tinha necessidades mais imediatas. Comer, fugir, esconder, mendigar. Mendigar a vida. O mendigo é um indivíduo altamente socializado, pensei. Na natureza não seria dessa forma. Na natureza rouba-se e mata-se quando a sobrevivência do indivíduo é ameaçada. E ele não faz isso. Aceita as regras e joga dentro delas. Imaginei-me passando ali vários anos depois. O mesmo mendigo poderia estar ainda lá, no casarão. Para adaptar-se melhor ao frio teria os pelos do corpo crescido muito além do tamanho normal. E cobririam todo o corpo. Seriam de um cinza desbotado e também suas unhas estariam maiores, os pés cascudos e as costas curvadas sob o próprio peso. Sem praticar perderia o jeito da fala, e emitiria somente grunhidos. Também perderia o jeito para se comunicar. O branco dos olhos estaria vermelho. Um bicho. Então ficaria ali, escondido, como um lobo, pensando somente em sua primeira necessidade: Comida. E descobriria então, por instinto, que à noite era mais fácil atacar. E então faria assim, devorando suas vítimas, uma a uma, no casarão abandonado, protegido dos olhares civilizados. E depois de um tempo o casarão seria transformado em um prédio novo, e então encontrariam seu corpo, e uma quantidade de ossos humanos. E as crianças comentariam nas escolas que ali, um dia, existiu um casarão mal-assombrado. Com um monstro, misto de bicho e homem, que devorava as pessoas. E os adultos ririam, dizendo que a imaginação delas é inacreditável.February 19 São Rafael, 15Rua São Rafael, número 15. Levantei, passei pela sala e fui em direção ao quarto superior. Estava escuro. Todos dormiam. Ignorando o barulho de alguns veículos na rua, o silêncio era quase total. Eu deveria estar dormindo ou deitado, mas naquela noite não. Saindo da sala alcancei o corredor central. Era uma casa antiga com um corredor comprido que ligava praticamente todos os cômodos. O piso era de pequenos quadrados preto-e-branco. Virei à esquerda e caminhei por eles. Estava frio, eu estava descalço e, no entanto o chão gelado não me incomodava. Meus pensamentos concentravam-se no quarto superior. Que mistério haveria de encontrar ali eu ainda não sabia. Mas por destino, ou por uma tentativa de vencer o medo, eu continuava andando. Antes da porta de entrada havia uma escada com três degraus. Quando pequeno eu costumava brincar ali e ainda tinha boas lembranças. Subi as escadas, a porta estava aberta. Uma porta de madeira, cinza, antiga, com a parte de baixo já desgastada pelo tempo. Entrei. Olhei para uma pequena janela que dava para a rua, na altura da calçada. Estava fechada e isto aumentava ainda mais a escuridão do quarto. No meio, uma cama de solteiro e ao fundo um pequeno armário de madeira. Olhei o armário. Secretamente, eu sabia que ali estava o que eu procurava. Era a primeira vez que o via e mesmo assim ele me era familiar. Como uma lembrança onde se perde os detalhes. Abri a porta do lado esquerdo. Somente duas tábuas dividiam o interior em prateleiras. A de cima estava vazia. Olhando a prateleira de baixo pude ver uma pequena caixa, parecida com uma dessas caixinhas de música. Ali. Estava ali. Tinha certeza absoluta de que encontrara aquilo que vinha procurando. Eu não sabia o que procurava. Ou sabia, mas não percebia. A vida, no seu mais íntimo, sem impurezas e sem disfarces era o que eu procurava. Um motivo para a vida. Uma justificativa. Peguei a caixa em minhas mãos e levantei a tampa. Dentro, vi o céu. E era noite. Um céu noturno. E olhar para dentro da caixa era enxergar a imensidão do céu, em todo o seu tamanho, sem nuvens, com estrelas brilhantes, um céu limpo, onde tudo era possível. Vendo aquele céu eu via a vida, o universo dentro da caixa. Tentei fechar os olhos. Queria chorar, mas não conseguia. O olhar fixo, para o céu, para o nada, o infinito. Senti um arrepio. Minhas pernas amoleceram. Era isso. Eu era maior que todo o universo. E ele era maior do que eu. Foi ali, naquele instante, olhando para aquele minúsculo infinito, que percebi a vida. Tão pequena. E tão grande. Tão indiferente ao que sinto. A vida, crua, seca, a vida sendo vida, o mundo, eu. Fechei a caixa. Não havia mais o que ver ali. Ainda levanto à noite e perco o sono. Mas agora caminho com mais leveza. Agora não procuro motivos, porque sei que meu universo está sob controle. Ali, na caixa, dentro do armário. O armário que não existe. Na rua São Rafael, número 15. February 15 O quintalToquei a campainha. Ninguém atendeu. Acho que não estão em casa, pensei. Engraçado, não me disseram que iriam sair. Ou não teria vindo. Mas agora estou aqui e é tarde, não tenho como voltar. Quem sabe não fico nos fundos da casa, aguardando até que cheguem. Na rua está escuro e é perigoso. Vou pular o portão e aguardar lá dentro. Já pulei este portão uma vez. Mais a frente existe um outro portão pequeno, que prende o cachorro, e depois um caminho estreito, que passa por volta da casa e vai dar nos fundos. Subi em um degrau no muro ao lado, apoiei-me, e em um instante estava do lado de dentro. Abri o portão menor e caminhei no escuro. Parecia mais frio que o normal. Das outras vezes não estava sozinho e era estranho agora. A noite mostrava o céu limpo e com poucas estrelas. Chegando ao fim do corredor avistei o quintal, era grande, quase do tamanho de uma quadra. Havia uma árvore no centro e o chão era de terra com algumas poucas plantas que cresciam de forma desordenada. Olhei para todos os cantos, inconscientemente, talvez para certificar-me de que estava sozinho ali. Foi então que a vi. A noite é cúmplice do medo. E naquele momento senti medo. Medo do desconhecido, do não explicado, um medo infantil talvez. Firmei os olhos para tentar enxergar melhor. No fundo do quintal, onde o muro fazia curva, havia algo que se parecia com uma mesa, ou com aquelas camas de hospitais. Mas era pequena. Sentia medo, mas estava curioso. Curioso ou atraído, não sei definir. A mesa tinha quatro pés e deles subiam quatro canos de ferro que pareciam ter mais ou menos meio metro. Ao final, o tampo da mesa. E em cima da mesa, uma caixa. Pequena, de formato retangular. Saindo de dentro da caixa, uma luz fraca que escapava sem vontade de sair. Como a luz que vê alguém que observa um estádio iluminado pelo lado de fora. Vendo apenas o brilho que flutua sobre ele. Com a curiosidade vencendo o medo, comecei a andar em direção à mesa. Aproximei-me devagar, com receio, receio de ser descoberto? Receio de defrontar-me? Com o quê? Continuei caminhando. Naquele momento já não sabia se queria encontrar alguma coisa ou somente certificar-me de que não era nada. Ao chegar não hesitei e olhei dentro da caixa. O horror. O pavor. O rosto, o corpo, a criança, o adulto, o quintal, onde eu estava? Tomado de nojo e um sentimento miserável de piedade continuei olhando. Não queria olhar. Não queria ver. Dentro da caixa uma criança, o corpo de uma criança, com o rosto de um adulto. Imóvel. Ali, cercado por uma pequena luz branca que vinha de dentro da caixa, da criança, cercando-a. Meu estômago embrulhava. A repulsa que tomava conta de mim fazia-me querer correr, mas eu me mantinha, e olhava. Não havia expressão no rosto adulto. Estava calmo, sereno. Inerte. Feliz? Seria um adulto? Uma criança? Ali, real. Pensei em gritar, pedir ajuda, correr, em tomar toda a coragem do mundo e tirar a criança da caixa e levantá-la nos braços. Não fiz nada. Com a respiração pesada fui afastando-me. Andei de costas até atravessar o quintal. Tomei o caminho de volta e cheguei ao portão pequeno. Passei por ele, pulei o portão maior e alcancei a rua. Caminhei durante toda a noite sem saber aonde ir ou o que fazer. Dias depois voltei à mesma casa. Toquei a campainha. Atenderam. Entrei. Conversamos, rimos e brincamos. Da janela da cozinha, olhei para o quintal. Não havia nada. Nunca mais houve nada. February 14 O celular e a bolsa rosaEntrei no ônibus às nove horas da manhã. Sol fraco, céu nublado, dia normal. Era daqueles ônibus compridos que tem articulações no seu comprimento, pra permitir uma direção melhor. A cidade começou a passar lentamente. Enquanto o ônibus se movia comecei a reparar nos rostos desconhecidos que estavam ao redor de mim. O que pensavam? O que viam? Pensavam o mesmo que eu? Eu avaliava um homem que estava um pouco mais a frente. Moreno, cabelo crespo, barba por fazer, vestia uma camisa listrada, na horizontal. Vi que sua mão segurava um aparelho celular. Não sei o modelo. Mas dele saía um fio que subia até perto da altura do pescoço e ali se dividia. Como um fone de ouvido. Era um fone de ouvido. Ali estava um homem com um celular. Um celular aparentemente incompatível com o padrão de vida que ele transparecia. Tinha rugas no rosto. O que estaria pensando? Ouvia músicas? Ou estaria somente desfilando sua maior conquista? Não decifrei aquele homem. Olhava para fora como que indiferente a tudo. Um robô programado para estar no ônibus naquele horário, descer no ponto certo, trabalhar, fazer aquilo que deve ser feito, voltar e dormir. E no meio disso tudo, colocar um fone de ouvido e mostrar-se vencedor. Preconceito. O que estaria pensando? Poderia ser um daqueles homens que só pensam em sexo em todos os momentos do dia. Estaria ele, então, observando discretamente a moça com a bolsa rosa, ao lado? O ônibus parou. As pessoas começaram a se mover em direção à porta. Alguns grunhidos e estavam lá fora. Indo, cada um, para sua vida. O homem ajeitou-se dentro do novo espaço que tinha. Estava em pé e olhava para a porta. Lá fora uma placa cercava uma área na calçada e dois funcionários trabalhavam dentro de um buraco. Mais vidas. O que me preocupava? O que eu esperava? Com que intuito eu tentava entender aquele homem? Olhei para a mulher ao lado. A da bolsa rosa. Usava uma saia jeans justa, mais justa até que o necessário. Uma blusa de um verde indefinido e a bolsa, rosa. O mesmo rosa da sandália de tiras grossas. Deselegantes tiras rosa. Encolhida em um canto ela tentava não se mostrar demais, ou pelo menos, não se destacar ali, dentro do ônibus. Ela olhava para baixo como quem observa os próprios pés, como quem acata uma ordem superior. Parecia ignorar a presença do homem. Parecia ignorar a presença de todos, olhando para baixo como quem diz não me olhem, não estou aqui. O homem ajustava um botão no celular e pude concluir que ele ouvia música. Não estava se exibindo então? Não tentava mostrar para os outros sua conquista? Estaria somente passando o tempo? Aguardava a próxima etapa de sua programação? A porta se fechou e novamente começamos a andar. Duas vidas, lado a lado e tão distantes. Tão diferentes. Ele, perdido em pensamentos, sonhos, o celular, o ônibus, e ela, tímida, preocupada com o tamanho da saia, com a atenção indesejada, com a bolsa rosa. O homem e a mulher. O celular e a bolsa rosa. Só mais um dia, pensaria ele. Menos um dia, pensaria ela. February 13 O silêncioSilêncio. O silêncio era o que mais incomodava. Nem a dor, nem a fome. O silêncio era pior. Já não abria a boca, não tinha vontade. Abrir a boca era desperdiçar um pouco mais do que ainda restava de minha força. Não que não quisesse falar, mas não conseguiria, ou melhor, não seria ouvido. Já fazia algum tempo que não falava. Desde que percebi que seria inútil. Enquanto esforçava-me para virar no chão duro e frio, tentava não pensar em tudo o que tinha acontecido. A idéia era simples, e, de tão simples, perfeita. Mas agora estava ali, perdi a conta dos dias. Não via a luz, apenas uma penumbra, não via as horas e já não distinguia o dia da noite. O que deu errado? Lembrei-me de meu pai. Havia muito não pensava nele. Calvo, barbas bem aparadas, olhar sisudo, mas apenas para assustar. Era alegre. Pensei em como estaria, depois de tanto tempo. Teria aposentado, estaria bem? Devia tê-lo visto mais, brincado mais. Curtido mais. Agora era tarde. O cheiro do quarto era insuportável. Fezes em um dos cantos do cômodo e urina em outro. Lembrava o cheiro de banheiro de bares decadentes no centro da cidade. Um banho, um sonho. Aquilo tudo, estranhamente, já não me incomodava. Acostumei-me. Sem forças para sentar, tentava rolar para o lado de forma a diminuir a dor no braço esquerdo. Por quê? Por que lutar? Um sentimento ridículo de esperança, talvez. Esperança já sem cor. Animais, quando estão morrendo, não têm esperanças. Aguardam, sem saber, o destino inevitável. A morte, tão temida antes, e tão desejada agora. A morte, o fim. Não sei em que momento passei a olhar a morte assim, sem medo, com certo carinho, até. O fim da vida também é o fim do sofrimento maior que é viver com culpa. Mas qual a culpa? Tudo é nossa culpa. Somos vítimas e culpados de nossos atos. Seria a culpa do ato impensado? Mas o que é o ato impensado senão a conseqüência de um desejo já existente e não revelado? O braço melhorou. Ainda dói, mas já sinto o sangue circular melhor. A realidade não me deixa sonhar por muito tempo. Sou chamado a todo instante para provar o resultado das minhas próprias escolhas. Aprendi a me observar. Com tanto tempo, não tive outra opção. Conheço agora cada palmo de mim como nunca conheci antes. Sinto meus braços, pernas, sinto dores, desejos, ou seriam delírios? Desejos impossíveis são delírios. Sinto fome. Sinto sede. Olhar a penumbra me faz pensar em domingos. Domingos são como penumbras. São dias diferentes, os domingos. Mas agora eu quero e sonho por um domingo. Ainda que breve, mas um domingo. Com a tevê ligada e toda aquela programação oca. Com o rádio do vizinho tocando músicas incompreensíveis. O domingo das ruas vazias, um domingo. De novo a dor. Vou ter que me arrastar até o meio do quarto. Queria andar, não consigo andar. Não consigo levantar-me, as pernas não querem, não firmam. A fome trouxe consigo a fraqueza. E cada vez menos tento lutar contra. Eu deveria lutar? Não é verdade que há um mundo lá fora, que existe a vida e que devemos vivê-la? Como pude fazer isso? Como deixei chegar até aqui? O que eu pretendia? Na verdade, isso importa? Agora já não faz diferença. As paredes fedem mofo. O chão fede. O ar fede. Era tão simples. Chegar, entrar e sair. Simples. E acabou assim. Um quarto, uma porta, uma vida, a morte chegando devagar, irônica, quase feliz. Uma mãe não deveria ser senhora de seu filho. O filho não é mais dela. Assim que chega, o filho é dela, meu, do vizinho, do mundo. O filho não é filho de, é filho. Agora uma dor surge no joelho e vai aumentando a cada segundo. A circulação é difícil. Parece que meu próprio corpo esmaga cada veia. Mas a urina que desce acompanhando o rodapé se aproxima e eu preciso chegar ao centro do quarto. Ali parece ser um lugar seguro. Ali, onde tudo deveria acontecer. Ainda tenho nojo. As fezes me enojam, a urina fede. Penso em filmes que exibem a miséria da condição humana em alguns locais, mundo afora. Penso em pessoas que se arrastam como ratos, em uma vida desumana, comendo o lixo do mundo. Nesta hora, me igualo a eles. E talvez isso doa mais do que estar aqui. Pensar dói mais que a própria dor. O que teria acontecido se eu tivesse conseguido? Se eu tivesse entrado por aquela porta, tivesse alcançado a criança, tivesse corrido com ela? Seríamos felizes? Seríamos pai e filho? Estupidez. É a palavra que melhor descreve o que penso sobre o que fiz. Mas na hora não pareceu assim. Estava tudo muito certo, fazia sentido. Uma mulher não pode querer privar um homem de seu filho. Olho a porta fechada. Num instante penso que ela ainda vai se abrir. E vão me ver. Vão ver que eu estava certo e que fiz tudo da forma correta. Vão ver que até os piores meios podem ser válidos se o fim é grande. Então pisco. E volto para o mundo real. A porta não vai se abrir. Estou a salvo de meus próprios excrementos, pelo menos por enquanto. O centro do quarto, o local mais inesperado é agora o mais seguro. A dor na perna parece estar em constante expansão e agora já não sei mais onde dói. Parece que todo o corpo está sendo privado de vida. Cada célula reclama sua parte no que resta de energia. Penso no filho, na mulher, mãe, na idéia. A idéia. Entrar na casa, pegar o filho e correr. Correr com toda a força de um mamífero que foge de seu predador. Correr para não ser alcançado nunca, jamais. Correr para a vida. A vida não vivida, mas esperada. O filho. E agora já não corro, mas espero que a morte corra. Ou qualquer outro. Mas que chegue aqui e elimine essa existência idiota e absurda que enfrento agora. Se eu tivesse forças, sairia desse cômodo. Mas, quero sair? Já não sei. Esse ridículo e estranho sentimento que toma conta de mim me faz evitar um fio de urina que corre pelo chão, ao mesmo tempo em que penso deixar a vida para diminuir o sofrimento. Como eu poderia saber? Como eu poderia imaginar que ela estaria pronta para minha chegada, que estaria me observando, com olhos atentos, esperando meu ataque para, em seguida, aplicar seu golpe fatal? Agora espero. Espero o quê não sei. Espero uma solução. Não busco nada, deixo que os fatos se sucedam e as coisas aconteçam. Queria pensar que isso é um sonho, que o final será feliz, que é só mais um daqueles pesadelos onde acordamos suados e felizes de descobrir que era sonho, mas não é assim. Estou aqui e minha garganta parece estar fechando. Sinto câimbras e a visão está embaçada. Valeu a pena? Minha vida valeu a pena? O estudo, o trabalho, cada minuto, valeu a pena? Lembro do dia em que completei as moedas de uma senhora que comprava pão no mercado. Lembro de ter me sentido bem com aquilo. Uma felicidade pequena. Instantânea, quase. E eu não podia ter vivido meio feliz? Em busca de minha felicidade completa passei por cima do sentimento das moedinhas. Passei por cima da felicidade pequena, aos atropelos, em busca de uma coisa que eu nem mesmo sabia direito o que era. Inconsciente. Achei que estava fazendo de forma inconsciente. Mas não existe inconsciente. Existe a fuga. Não estar ciente do cheiro não o elimina. Não consigo abrir meus olhos. Estão embaralhados e pesados. Respiro com dificuldade, mas ainda domino meu corpo. Tento lembrar como tudo aconteceu. Vejo-me entrando, procurando o filho, procurando a felicidade. Acima de tudo, a felicidade. E então uma dor forte e localizada. No ouvido esquerdo. Lembro de ter caído e olhado para o filho. Lembro de quase pedir ajuda a ele. De quase implorar para entender os meus motivos, de quase me irritar pela sua inércia, pela sua não ação. E então eu a vejo. A mulher. Forte, inteira, viva. Então assim é a felicidade? Rapidamente pegou o filho e correu. Viveu tudo aquilo que planejei. Era ela correndo e não eu. Era ela com o filho e não eu. O que deu errado? A minha vida já não me pertencia mais. A idéia deu errado. A mulher corria. E junto com ela, a felicidade. A alegria e o sentido da vida. Não corri. Não sei por que não corri. Agora já não importa. Desde então espero por algo que não vai acontecer. Espero um sentido para a vida que não virá. Meu corpo dói. Vou esperar mais um pouco. Quem sabe tudo ainda vai ser como era antes. Com domingo cinza, com o rádio do vizinho, com o trabalho, com a falsa amizade necessária do trabalho, com o sorriso necessário, com a dor necessária. Estou sentindo uma anestesia. Como se estivesse em um hospital. A dor passou. O pensamento ainda luta. Ainda espera ser salvo. Mas acabou. O preço da felicidade foi alto demais. Injusto demais. Caro demais. E, não sei bem, mas acho que se tivesse conseguido, teria que conviver com uma culpa tão grande que preferiria que tudo tivesse dado errado. E deu. Ou melhor, não deu. |
|
|