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2月13日 O silêncioSilêncio. O silêncio era o que mais incomodava. Nem a dor, nem a fome. O silêncio era pior. Já não abria a boca, não tinha vontade. Abrir a boca era desperdiçar um pouco mais do que ainda restava de minha força. Não que não quisesse falar, mas não conseguiria, ou melhor, não seria ouvido. Já fazia algum tempo que não falava. Desde que percebi que seria inútil. Enquanto esforçava-me para virar no chão duro e frio, tentava não pensar em tudo o que tinha acontecido. A idéia era simples, e, de tão simples, perfeita. Mas agora estava ali, perdi a conta dos dias. Não via a luz, apenas uma penumbra, não via as horas e já não distinguia o dia da noite. O que deu errado? Lembrei-me de meu pai. Havia muito não pensava nele. Calvo, barbas bem aparadas, olhar sisudo, mas apenas para assustar. Era alegre. Pensei em como estaria, depois de tanto tempo. Teria aposentado, estaria bem? Devia tê-lo visto mais, brincado mais. Curtido mais. Agora era tarde. O cheiro do quarto era insuportável. Fezes em um dos cantos do cômodo e urina em outro. Lembrava o cheiro de banheiro de bares decadentes no centro da cidade. Um banho, um sonho. Aquilo tudo, estranhamente, já não me incomodava. Acostumei-me. Sem forças para sentar, tentava rolar para o lado de forma a diminuir a dor no braço esquerdo. Por quê? Por que lutar? Um sentimento ridículo de esperança, talvez. Esperança já sem cor. Animais, quando estão morrendo, não têm esperanças. Aguardam, sem saber, o destino inevitável. A morte, tão temida antes, e tão desejada agora. A morte, o fim. Não sei em que momento passei a olhar a morte assim, sem medo, com certo carinho, até. O fim da vida também é o fim do sofrimento maior que é viver com culpa. Mas qual a culpa? Tudo é nossa culpa. Somos vítimas e culpados de nossos atos. Seria a culpa do ato impensado? Mas o que é o ato impensado senão a conseqüência de um desejo já existente e não revelado? O braço melhorou. Ainda dói, mas já sinto o sangue circular melhor. A realidade não me deixa sonhar por muito tempo. Sou chamado a todo instante para provar o resultado das minhas próprias escolhas. Aprendi a me observar. Com tanto tempo, não tive outra opção. Conheço agora cada palmo de mim como nunca conheci antes. Sinto meus braços, pernas, sinto dores, desejos, ou seriam delírios? Desejos impossíveis são delírios. Sinto fome. Sinto sede. Olhar a penumbra me faz pensar em domingos. Domingos são como penumbras. São dias diferentes, os domingos. Mas agora eu quero e sonho por um domingo. Ainda que breve, mas um domingo. Com a tevê ligada e toda aquela programação oca. Com o rádio do vizinho tocando músicas incompreensíveis. O domingo das ruas vazias, um domingo. De novo a dor. Vou ter que me arrastar até o meio do quarto. Queria andar, não consigo andar. Não consigo levantar-me, as pernas não querem, não firmam. A fome trouxe consigo a fraqueza. E cada vez menos tento lutar contra. Eu deveria lutar? Não é verdade que há um mundo lá fora, que existe a vida e que devemos vivê-la? Como pude fazer isso? Como deixei chegar até aqui? O que eu pretendia? Na verdade, isso importa? Agora já não faz diferença. As paredes fedem mofo. O chão fede. O ar fede. Era tão simples. Chegar, entrar e sair. Simples. E acabou assim. Um quarto, uma porta, uma vida, a morte chegando devagar, irônica, quase feliz. Uma mãe não deveria ser senhora de seu filho. O filho não é mais dela. Assim que chega, o filho é dela, meu, do vizinho, do mundo. O filho não é filho de, é filho. Agora uma dor surge no joelho e vai aumentando a cada segundo. A circulação é difícil. Parece que meu próprio corpo esmaga cada veia. Mas a urina que desce acompanhando o rodapé se aproxima e eu preciso chegar ao centro do quarto. Ali parece ser um lugar seguro. Ali, onde tudo deveria acontecer. Ainda tenho nojo. As fezes me enojam, a urina fede. Penso em filmes que exibem a miséria da condição humana em alguns locais, mundo afora. Penso em pessoas que se arrastam como ratos, em uma vida desumana, comendo o lixo do mundo. Nesta hora, me igualo a eles. E talvez isso doa mais do que estar aqui. Pensar dói mais que a própria dor. O que teria acontecido se eu tivesse conseguido? Se eu tivesse entrado por aquela porta, tivesse alcançado a criança, tivesse corrido com ela? Seríamos felizes? Seríamos pai e filho? Estupidez. É a palavra que melhor descreve o que penso sobre o que fiz. Mas na hora não pareceu assim. Estava tudo muito certo, fazia sentido. Uma mulher não pode querer privar um homem de seu filho. Olho a porta fechada. Num instante penso que ela ainda vai se abrir. E vão me ver. Vão ver que eu estava certo e que fiz tudo da forma correta. Vão ver que até os piores meios podem ser válidos se o fim é grande. Então pisco. E volto para o mundo real. A porta não vai se abrir. Estou a salvo de meus próprios excrementos, pelo menos por enquanto. O centro do quarto, o local mais inesperado é agora o mais seguro. A dor na perna parece estar em constante expansão e agora já não sei mais onde dói. Parece que todo o corpo está sendo privado de vida. Cada célula reclama sua parte no que resta de energia. Penso no filho, na mulher, mãe, na idéia. A idéia. Entrar na casa, pegar o filho e correr. Correr com toda a força de um mamífero que foge de seu predador. Correr para não ser alcançado nunca, jamais. Correr para a vida. A vida não vivida, mas esperada. O filho. E agora já não corro, mas espero que a morte corra. Ou qualquer outro. Mas que chegue aqui e elimine essa existência idiota e absurda que enfrento agora. Se eu tivesse forças, sairia desse cômodo. Mas, quero sair? Já não sei. Esse ridículo e estranho sentimento que toma conta de mim me faz evitar um fio de urina que corre pelo chão, ao mesmo tempo em que penso deixar a vida para diminuir o sofrimento. Como eu poderia saber? Como eu poderia imaginar que ela estaria pronta para minha chegada, que estaria me observando, com olhos atentos, esperando meu ataque para, em seguida, aplicar seu golpe fatal? Agora espero. Espero o quê não sei. Espero uma solução. Não busco nada, deixo que os fatos se sucedam e as coisas aconteçam. Queria pensar que isso é um sonho, que o final será feliz, que é só mais um daqueles pesadelos onde acordamos suados e felizes de descobrir que era sonho, mas não é assim. Estou aqui e minha garganta parece estar fechando. Sinto câimbras e a visão está embaçada. Valeu a pena? Minha vida valeu a pena? O estudo, o trabalho, cada minuto, valeu a pena? Lembro do dia em que completei as moedas de uma senhora que comprava pão no mercado. Lembro de ter me sentido bem com aquilo. Uma felicidade pequena. Instantânea, quase. E eu não podia ter vivido meio feliz? Em busca de minha felicidade completa passei por cima do sentimento das moedinhas. Passei por cima da felicidade pequena, aos atropelos, em busca de uma coisa que eu nem mesmo sabia direito o que era. Inconsciente. Achei que estava fazendo de forma inconsciente. Mas não existe inconsciente. Existe a fuga. Não estar ciente do cheiro não o elimina. Não consigo abrir meus olhos. Estão embaralhados e pesados. Respiro com dificuldade, mas ainda domino meu corpo. Tento lembrar como tudo aconteceu. Vejo-me entrando, procurando o filho, procurando a felicidade. Acima de tudo, a felicidade. E então uma dor forte e localizada. No ouvido esquerdo. Lembro de ter caído e olhado para o filho. Lembro de quase pedir ajuda a ele. De quase implorar para entender os meus motivos, de quase me irritar pela sua inércia, pela sua não ação. E então eu a vejo. A mulher. Forte, inteira, viva. Então assim é a felicidade? Rapidamente pegou o filho e correu. Viveu tudo aquilo que planejei. Era ela correndo e não eu. Era ela com o filho e não eu. O que deu errado? A minha vida já não me pertencia mais. A idéia deu errado. A mulher corria. E junto com ela, a felicidade. A alegria e o sentido da vida. Não corri. Não sei por que não corri. Agora já não importa. Desde então espero por algo que não vai acontecer. Espero um sentido para a vida que não virá. Meu corpo dói. Vou esperar mais um pouco. Quem sabe tudo ainda vai ser como era antes. Com domingo cinza, com o rádio do vizinho, com o trabalho, com a falsa amizade necessária do trabalho, com o sorriso necessário, com a dor necessária. Estou sentindo uma anestesia. Como se estivesse em um hospital. A dor passou. O pensamento ainda luta. Ainda espera ser salvo. Mas acabou. O preço da felicidade foi alto demais. Injusto demais. Caro demais. E, não sei bem, mas acho que se tivesse conseguido, teria que conviver com uma culpa tão grande que preferiria que tudo tivesse dado errado. E deu. Ou melhor, não deu. 引用通告此日志的引用通告 URL 是: http://wanderrodrigues.spaces.live.com/blog/cns!A2EF59F7F2154DDA!115.trak 引用此项的网络日志
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