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February 19 São Rafael, 15Rua São Rafael, número 15. Levantei, passei pela sala e fui em direção ao quarto superior. Estava escuro. Todos dormiam. Ignorando o barulho de alguns veículos na rua, o silêncio era quase total. Eu deveria estar dormindo ou deitado, mas naquela noite não. Saindo da sala alcancei o corredor central. Era uma casa antiga com um corredor comprido que ligava praticamente todos os cômodos. O piso era de pequenos quadrados preto-e-branco. Virei à esquerda e caminhei por eles. Estava frio, eu estava descalço e, no entanto o chão gelado não me incomodava. Meus pensamentos concentravam-se no quarto superior. Que mistério haveria de encontrar ali eu ainda não sabia. Mas por destino, ou por uma tentativa de vencer o medo, eu continuava andando. Antes da porta de entrada havia uma escada com três degraus. Quando pequeno eu costumava brincar ali e ainda tinha boas lembranças. Subi as escadas, a porta estava aberta. Uma porta de madeira, cinza, antiga, com a parte de baixo já desgastada pelo tempo. Entrei. Olhei para uma pequena janela que dava para a rua, na altura da calçada. Estava fechada e isto aumentava ainda mais a escuridão do quarto. No meio, uma cama de solteiro e ao fundo um pequeno armário de madeira. Olhei o armário. Secretamente, eu sabia que ali estava o que eu procurava. Era a primeira vez que o via e mesmo assim ele me era familiar. Como uma lembrança onde se perde os detalhes. Abri a porta do lado esquerdo. Somente duas tábuas dividiam o interior em prateleiras. A de cima estava vazia. Olhando a prateleira de baixo pude ver uma pequena caixa, parecida com uma dessas caixinhas de música. Ali. Estava ali. Tinha certeza absoluta de que encontrara aquilo que vinha procurando. Eu não sabia o que procurava. Ou sabia, mas não percebia. A vida, no seu mais íntimo, sem impurezas e sem disfarces era o que eu procurava. Um motivo para a vida. Uma justificativa. Peguei a caixa em minhas mãos e levantei a tampa. Dentro, vi o céu. E era noite. Um céu noturno. E olhar para dentro da caixa era enxergar a imensidão do céu, em todo o seu tamanho, sem nuvens, com estrelas brilhantes, um céu limpo, onde tudo era possível. Vendo aquele céu eu via a vida, o universo dentro da caixa. Tentei fechar os olhos. Queria chorar, mas não conseguia. O olhar fixo, para o céu, para o nada, o infinito. Senti um arrepio. Minhas pernas amoleceram. Era isso. Eu era maior que todo o universo. E ele era maior do que eu. Foi ali, naquele instante, olhando para aquele minúsculo infinito, que percebi a vida. Tão pequena. E tão grande. Tão indiferente ao que sinto. A vida, crua, seca, a vida sendo vida, o mundo, eu. Fechei a caixa. Não havia mais o que ver ali. Ainda levanto à noite e perco o sono. Mas agora caminho com mais leveza. Agora não procuro motivos, porque sei que meu universo está sob controle. Ali, na caixa, dentro do armário. O armário que não existe. Na rua São Rafael, número 15. TrackbacksThe trackback URL for this entry is: http://wanderrodrigues.spaces.live.com/blog/cns!A2EF59F7F2154DDA!128.trak Weblogs that reference this entry
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