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March 27 Mente divididaTenho a mente dividida. Tenho a impressão às vezes, de que sou duas pessoas em uma só. Bom humor, mau humor, calmo, irritado, nervoso, tranqüilo... Consigo alternar momentos de extremo bom humor com uma impaciência inexplicável. Mas quem quer saber? Quem se importa? Saí de casa como de costume, entrei no carro e segui pelas ruas frias e ainda com um resto de neblina. Seria mais um dia de trabalho normal, se é que posso chamar de normal o meu trabalho ou eu mesmo. Não sei bem o que é ser normal. Dirigi por ruas estreitas e cheguei até a avenida principal que iria me levar até o escritório. Parado no sinal, ao lado de um casarão demolido, pude observar um casal que se movimentava enrolado em pedaços de pano. Rapidamente concluí que se tratava de mendigos procurando um abrigo. O sinal abriu e arranquei. Não sei explicar o motivo, mas o fato é que fiquei com a imagem de dois vultos perambulando pelas sombras dos escombros, figuras sem rosto, vagando numa espécie de inferno na terra. Fiquei pensando neles. O que fazem os mendigos? Ignorados por sua própria raça tornam-se subumanos e então se tornam mendigos. É o estágio mais precário da condição humana. Imaginei-me mendigo. Sem família, sem trabalho, sem casa, carro, despido de valores morais e éticos. Sem horários, sem realizações, sem planos. Imaginei-me caminhando pelos corredores do casarão, sujo, descalço, com vergonha de mim mesmo, com nojo. Enrolado em trapos. Tentando não aparecer para ninguém, tentando conseguir alguma comida e um lugar pra dormir. Olhei para o relógio, quase oito horas. O dia estava começando. Meu dia, eu já sabia, seria ruim. Pouco trabalho e consequentemente, pouco dinheiro. Mas os mendigos... Liguei o rádio. O locutor apresentava as notícias cotidianas de corrupção no governo. Não prestei atenção, não era novidade. A novidade, hoje, era o mendigo. O mendigo que provavelmente estava ali todos os dias. Que devia estar invadindo aquela área para se esconder do frio e das pessoas. Que seria preso se fosse visto. Que estava sujo, mas não queria um banho. Tinha necessidades mais imediatas. Comer, fugir, esconder, mendigar. Mendigar a vida. O mendigo é um indivíduo altamente socializado, pensei. Na natureza não seria dessa forma. Na natureza rouba-se e mata-se quando a sobrevivência do indivíduo é ameaçada. E ele não faz isso. Aceita as regras e joga dentro delas. Imaginei-me passando ali vários anos depois. O mesmo mendigo poderia estar ainda lá, no casarão. Para adaptar-se melhor ao frio teria os pelos do corpo crescido muito além do tamanho normal. E cobririam todo o corpo. Seriam de um cinza desbotado e também suas unhas estariam maiores, os pés cascudos e as costas curvadas sob o próprio peso. Sem praticar perderia o jeito da fala, e emitiria somente grunhidos. Também perderia o jeito para se comunicar. O branco dos olhos estaria vermelho. Um bicho. Então ficaria ali, escondido, como um lobo, pensando somente em sua primeira necessidade: Comida. E descobriria então, por instinto, que à noite era mais fácil atacar. E então faria assim, devorando suas vítimas, uma a uma, no casarão abandonado, protegido dos olhares civilizados. E depois de um tempo o casarão seria transformado em um prédio novo, e então encontrariam seu corpo, e uma quantidade de ossos humanos. E as crianças comentariam nas escolas que ali, um dia, existiu um casarão mal-assombrado. Com um monstro, misto de bicho e homem, que devorava as pessoas. E os adultos ririam, dizendo que a imaginação delas é inacreditável.TrackbacksThe trackback URL for this entry is: http://wanderrodrigues.spaces.live.com/blog/cns!A2EF59F7F2154DDA!129.trak Weblogs that reference this entry
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